A apropriação dos vazios urbanos como polos transformadores da cidade

Texto de: CARLOS FAVERO MARCHI, 13/10/15

 

Segundo Leite, “Nas décadas recentes, tem-se observado uma emergência comum às grandes metrópoles mundiais: os antigos espaços urbanos centrais estão perdendo boa parte de suas funções produtivas, tornando-se obsoletos e, assim, transformam-se em territórios disponíveis, oportunos. Trata-se dos chamados vazios urbanos, wastelands ou brownfields.”

O esvaziamento das áreas centrais pelo setor industrial provocou a degradação urbana dos locais, onde os espaços dotados de boa infraestrutura e memória urbana são subutilizados. São essas regiões abandonadas o alvo de grandes projetos urbanos, principalmente nas metrópoles desenvolvidas. Assim, através de novas políticas urbanas e por meio de parcerias público privadas, criam-se os chamados clusters urbanos criativos. (LEITE, 2012)

Essas grandes regiões urbanas potenciais para tais mudanças, são catalizadoras de investimentos, onde o poder público e a iniciativa privada juntos, fomentam a regeneração e reestruturação urbana através de projetos específicos (LEITE, 2012). O foco principal dessas intervenções em grande escala é promover a renovação dos espaços, a criação de áreas públicas para incentivar a população a reocupar os antigos vazios abandonados.

imagem1Potsdamer Platz – Berlin – processo de requalificação após devastação durante a 2º Guerra e abandono Durante a Guerra Fria – fonte: google images

 

As grandes metrópoles europeias como Paris, Berlim e Barcelona, ao longo dos últimos 35 anos estão passando por um processo de grandes transformações urbanas, onde o antigo caos urbano está sendo modificado em amplos e concorridos espaços públicos, com foco nos encontros da sociedade e na multiculturalidade, atraindo assim mais e mais pessoas para visitar esses novos locais. Bons exemplos dessa nova ocupação dos espaços ociosos, antes esquecidos pela população, são as áreas portuárias da Dockland em Londres e o antigo distrito industrial de Poblenou em Barcelona. (DIAS, 2005)

Em Barcelona com a criação de uma zona franca fora da cidade as indústrias deixam o local de forma gradativa, onde se vê o esvaziamento e abandono ao longo dos anos. Com os projetos para sediar as olimpíadas em 1992 inicia-se um processo de reurbanização e incentivo dessas áreas com potencial para receber novos usos e funções. A vila Olímpica proposta começa a recuperação da orla da cidade como projeto catalizador de novas mudanças. ( MARQUES e LEITE, 2007)

Num conjunto de 4 grandes projetos se encontra o 22@bcn, no antigo distrito Poblenou, antes expressivo setor fabril da cidade, a área passa por um processo de adensamento e pluralização de usos, buscando a integração das atividades econômicas  e cívicas, com projeto de 15 a 20 anos de implantação. A mudança de usos, antes integralmente industrial, os incentivos e melhoramentos propostos, recuperam o local e incentivam a população a ocupá-lo. (MARQUES e LEITE, 2007)

imagem2Plano de intervenções no antigo distrito Poblenou – atual 22@bcn. Fonte: pricetags.wordpress.com

Em Londres as imensas áreas portuárias às margens do Rio Tâmisa foram abandonadas e subutilizadas a partir dos anos 60 a 70 – o porto que antes foi considerado o maior do mundo,  se encontrou vazio e os locais antes tão dinâmicos, foram renegados.

A região passa a ser uma fratura urbana não pertencente ao tecido vivo, o rio se torna barreira e “divide” a cidade, desconectando as partes. Surge então o projeto que propõe a recuperação local, potencializando o valor histórico e cultural e buscando através de novos usos a renovação urbana. Numa parceria público – privado, o governo se torna responsável pelos investimentos em infraestrutura compatível aos novos usos, e cabe ao setor privado os investimentos  nos empreendimentos que receberão essas novas atividades.

Assim, as Docklands são renovadas e passam a possuir um mix de usos, como lazer, habitação, comércio e serviços (GUERRA, 2005). Apesar das inúmeras contradições que o projeto apresentou e de uma repulsa de parte da população ao adensamento e arranha-céus propostos, pode-se dizer que o projeto atingiu seus objetivos. Em 2001 (20 anos após a implantação inicial) já existiam 24 mil novas habitações e 5 mil escritórios, que alavancaram a criação de 80 mil empregos. A ligação metroviária da City (centro da cidade) com as Docklands em apenas 11 minutos favoreceu esse adensamento, onde os investimentos do setor privado se fizeram de forma mais intensa.(WILHEIM, 2005).

imagem3Docklands londrinas. Processo urbano com 35 anos de implantação inicial  Fonte: urban75.org

 

No Brasil, temos um processo semelhante de recuperação portuária, é o caso da região das Docas em Belém do Pará . Foi em 1990 que surgiu a ideia de resgatar a cultura paraense através do restauro e recuperação de importantes edifícios históricos da cidade, buscando assim novos polos turísticos na região. O projeto que teve inicio na recuperação da área central de Belém teve grande êxito também na renovação da antiga área portuária, local que guardava importante carga cultural e histórica da cidade mas que até então estava em estado de completo abandono.

O projeto visou criar um complexo cultural, de lazer e turismo, preservando o patrimônio arquitetônico. A revitalização urbana gerou 800 empregos diretos e mais de 1600 empregos indiretos, proporcionando também uma nova área de lazer para a comunidade que agora se apropria da orla. A região é tombada desde o ano 2000 quando foi entregue para a cidade – o complexo é composto por áreas gastronômicas, culturais e eventos e está disposto em 32 mil metros quadrados, sendo 3 armazéns e 1 terminal de passageiros.  A gratuidade das atividades culturais e a valorização dos artistas locais são características marcantes do local. A Estação das Docas é exemplo a ser seguido por outras cidades brasileiras (site Cidades Sustentáveis).

imagem4Estação das Docas – Belém do Pará. Revitalização portuária – fonte: google images

 

Em Buenos Aires a revitalização de Puerto Madero foi fruto de uma parceria público privado também. O projeto restaurou os antigos armazéns da área portuária e fez uso dos maquinários como parte integrante da paisagem, assim o local  próximo a região central passou a ser polo catalizador de novas transformações. Com investimentos imobiliários, o novo bairro tornou-se polo financeiro e residencial, agora provido de infraestrutura suficiente. Os restaurantes e hotéis são responsáveis pelo apelo turístico do local. A interação da história com a estética contemporânea, completam a proposta de sucesso. Em contrapartida, a ausência de habitação de interesse social e a não divisão dos fundos de investimentos com outras regiões deficientes da cidade geram críticas constantes aos resultados da transformação que causa uma gentrificação no local . (BRITTO, 2013)

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Puerto Madero – Buenos Aires, Argentina. Fonte: google images

As parcerias público privadas, no Brasil conhecidas como PPP, são atualmente responsáveis pela realização desses grandes projetos urbanos. O processo funciona da seguinte maneira: a iniciativa pública na forma dos governos municipais, estaduais e federal identificam as áreas potenciais nas cidades que possam fomentar mudanças significativas nos âmbitos urbanos e econômicos. Geralmente esses locais são de grande importância histórica e possuem infraestrutura (fácil acesso, boa localização e investimentos anteriores).

Faz-se portanto um plano de requalificação urbana buscando a reocupação dos espaços,  onde a iniciativa pública fica responsável pelos investimentos necessários em infraestrutura para readequação da região aos novos usos (mistos em sua maioria, agrupando empreendimentos residenciais, culturais e serviços numa mesma área) e a iniciativa privada responde pelos investimentos nos edifícios que atenderão essa nova dinâmica espacial e as diversas atividades. Muitas vezes são organizados grupos específicos para acompanhamento e implantação dos projetos que acontecem numa macro escala em períodos de 5 a 20 anos.

Em São Paulo esses investimentos acontecem na forma das chamadas Operações Urbanas Consorciadas, o poder público analisa o tecido urbano e identifica áreas potenciais que se encontram abandonadas ou ainda pouco adensadas e propõe ocupações e usos para incentivar seu crescimento. Esses planos estabelecem diretrizes para desenvolvimento urbano e seu financiamento é feito  pela iniciativa privada que compra títulos disponibilizados pela prefeitura (os chamados CEPACS) que possibilitam um maior adensamento nos lotes contidos dentro do perímetro delimitado. A prefeitura por sua vez utiliza esses investimentos em melhorias para impulsionar o crescimento das áreas. As Operações Urbanas implantadas são Centro, Água Branca, Água Espraiada, Faria Lima e Tamanduateí, parcialmente implantadas e ainda com muitas melhorias a serem feitas. (PMSP)

imagem6Perímetro Operação Urbana Consorciada Água Branca – fonte: www.estadao.com.br

 

O processo de  requalificação dos centros urbanos requer investimento maciço, muito planejamento e intensa atividade das partes envolvidas, mas são novos caminhos para recuperação das cidades atuais e seus vazios urbanos desconectados.

 

REFERÊNCIAS

  • LEITE, Carlos – “Cidades Sustentáveis, Cidades Inteligentes” – São Paulo, Bookman, 2012.
  • ____Estação das Docas: um projeto exitoso de revitalização do centro urbano de Belém. www.Cidadesustentaveis.org.br . Acessado em: 07 Out. 2015.