Exarcheia: a cidade manufaturada – um paralelo entre Grécia e Brasil

Texto de: CARLOS  FAVERO MARCHI, 09/06/2015

2014: Grécia, Atenas, Exarcheia…
É num cenário moldado pelos efeitos colaterais do hiper-capitalismo global (caracterizado pela instituição da crise cronica como normativa, encurtando os processos cíclicos tão bem definidos por Karl Marx em “O Capital”), que se observa uma das experiências mais intensas de produção coletiva da cidade, através da manufatura do espaço urbano, da (re)construção do lugar e da definição de novos territórios humanos.

[Fonte: Greek Destinations]

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Atenas, palco de invenções essenciais para a construção do conceito de cidade – principalmente pela criação e implementação da Pólis (a cidade-estado) e sua gestão democrática através de debates coletivos nos fóruns públicos (as Ágoras) – mais uma vez promove modelos alternativos para a apropriação e manejo do espaço urbano.

O bairro de Exarcheia, localizado na região central da cidade, é um exemplo de como uma determinada comunidade pode se organizar para manufaturar equipamentos urbanos, definir estratégias de ocupação e promover adequações espacias espontâneas de forma mais dinâmica.

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[Exarcheia map – Fonte: Kenosfakelos]

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Originalmente ocupado por pequenos comerciantes que usufruíam da localização estratégica para distribuir seus produtos pela cidade, sofreu uma grande transformação depois da instalação da Universidade Politécnica Nacional de Atenas, principalmente por atrair acadêmicos e militantes de esquerda que transformaram esta porção geográfica num território, isto é, a materialização espacial da identidade e dos valores de uma determinada comunidade, constituindo assim um lugar.

Vale aqui resgatar o conceito de espaço-geográfico, apresentado por Milton Santos em “A natureza do espaço”, que supera o entendimento da realidade como uma mera tradução de seus atributos físicos: “o espaço geográfico é a natureza socializada, pois, muitos fenômenos apresentados como se fossem naturais, são, de fato, sociais”.

O pensamento critico promovido pelo ambiente acadêmico, encontrou forte identidade com os moradores locais e consolidou Exarcheia como um núcleo de resistência ideológica aos modelos convencionais, promovidos pelo governo no restante do país. O bairro foi e continua sendo classificado como um “lugar anárquico” pela mídia grega e governo, o que de certa forma parece ser um equivoco, uma vez que o lugar possui leis e regras próprias relativas a conduta social e a ocupação da fabrica urbana.

A grande diferença é que estas diretrizes não seguem os mesmos moldes do restante da cidade e funcionam de uma forma muito mais dinâmica, com a participação dos moradores, através de fóruns públicos presenciais e virtuais, para a definição de ações e prioridades.

Um bom exemplo destas dinâmicas urbanas peculiares do bairro refere-se a apropriação de lotes vagos, utilizados para a especulação imobiliária no período pré-crise econômica de 2008. O zoneamento urbano grego caracterizava alguns quarteirões como áreas publicas sem destinação de uso clara; estas áreas eram transferidas de forma não oficial pelo governo à empresas do setor privado, que passavam a ocupar as mesmas como estacionamentos, esperando a valorização econômica nos preços dos terrenos do entorno para, num momento oportuno, iniciar a construção de edificações que explorassem todo o potencial construtivo da propriedade, maximizando os lucros obtidos pelos respectivos investidores.

Esta pratica ilícita entre Estado e Mercado não só feria a legislação urbana, mas também agravava o fato de Atenas ter um dos piores índices de áreas verdes em perímetros urbanos europeus (segundo a organização The New Geography, em 2013), uma vez que as reservas urbanas para implementação de espaços públicos eram consumidas por estacionamentos e incorporações imobiliárias.

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Em Exarcheia, através dos fóruns públicos, a comunidade se organizou e passou a dar destinações aos lotes e empreendimentos vagos que claramente funcionavam como mera especulação imobiliária fomentada pelo governo. O estacionamento Navarinou foi transformado, oficialmente, no parque Navarinou depois de meses de ocupação territorial e processo jurídico implementado pela comunidade local para recuperar a vocação urbana do zonamento grego original (que destinava o lote para um parque e não para um uso particular).

[Estacionamento Navarinou]

[Ocupação Navarinou]

Todos os equipamentos urbanos e o paisagismo foram construídos pelos moradores, sem interferência do governo ou de empresas do setor privado. Um novo micro-zoneamento foi elaborado pela comunidade para definir a destinação das áreas não ocupadas por motivos de especulação.

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 [Fonte:Prqkademokraciq.files]

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 Além disso, desde o final de 2008, edifícios abandonados passaram a funcionar como unidades de saúde, escolas, creches, onde moradores se organizaram em processos rotativos para ocupar funções sociais cotidianas especificas, promovendo trocas gratuitas de serviços.

Essa auto-organização social, num período de crise econômica que já dura mais de 5 anos, fez com que o bairro consolidasse sua autonomia em relação ao governo grego, caracterizando-se como um enclave urbano diverso e distinto do restante da cidade, consumida e massificada por modelos de ocupação urbana de livre-mercado, representada principalmente pela tipologia que se esparrama pelo território de forma repetitiva e fragmentada, as “polikatoikeas” :

[Tipologia Polikatoikia: Fonte “From Dom-Ino to Polykatoikia “- Aureli, Pier Vittorio]

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- edifícios habitacionais de quatro a seis pavimentos, com mais de quatro unidades por andar e embasamento comercial, que ocupam o terreno completamente sem deixar as reservas de áreas verdes permeáveis ou de espaços públicos previstas em lei .

Acima de todas as questões politicas e posicionamentos partidários, Exarcheia é um modelo de auto-gestão urbana, de manufatura de equipamentos públicos e de arquitetura espontânea, no qual o território se torna um lugar de espaços com vocações mais dinâmicas, promovendo diversidade e democracia de apropriações, sem diminuir a complexidade e riqueza das formações oriundas de processos urbanos contraditórios.

(muitas vezes sintetizar uma transformação espacial num cenário urbano complexo, com simples alteração da cor de uma parede, por exemplo, parece enfraquecer os processos participativos e diminuir a gama de soluções espaciais praticadas).

O modelo peculiar deste bairro ateniense reúne processos ricos de participação publica e soluções espaciais simples, porem sofisticadas pela criatividade coletiva.

[Fonte: Panosdragonas]

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REFERÊNCIAS

AURELI, Pier Vittorio . From Dom-ino to Polykatoikia . Artigo publicado na revista Domus, Outubro, 2012

CAPPUCCINI , Monia . Urban space and anti-neoliberal social movements: the case of Exarchia neighborhood in Athens, Greece . Artigo publicado pela Universidade de La Sapienza , Roma, Italia

CRESPO, Matheus . Um estudo sobre o conceito de território na análise geográfica . ISNN 2179-3263

FILHO, João Bosco Moura Tonucci . Espaço e território: um debate em torno de conceitos-chave para a geografia crítica . Revista Espinhaço, 2013

LEFEBVRE, Henri. Espacio y Política. Barcelona: Península, 1976.

LEONTIDOU, Lila . Mediterranean ‘movement of the piazzas’. Spontaneity in material and virtual spaces in “City: analysis of urban trends, culture, theory, policy, action”, vol. 16 n.3, Routledge 2012

KOOLHAAS, Rem. The Generic City. New York: The Monacelli Press Inc. , 1995.

MITSOPOULOS, Michael e PELAGIDIS, Theodore. Understanding the Crisis
in Greece . Palgrave Macmillan, 2011

SANTOS, Milton. A Natureza do espaço. Edicon/Edusp, 1996

SOUZA, M.L. O território: sobre espaço e poder, autonomia e desenvolvimento. In: CASTRO, I.E.; GOMES, P.C.C.; CORREA, R.L. Geografia: conceitos e temas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009. p. 77-116.

http://roarmag.org/2011/07/exarchia-and-the-greek-spirit-of-resistance/

http://alternation.at/navarinou-park/

http://www.crisis-scape.net/