ESPAÇOS PÚBLICOS ITINERANTES: APROPRIAÇÕES INSTANTÂNEAS TEMPORAIS

Texto de:

CARLOS FAVERO MARCHI, 21/09/15

 

Segundo Jan Gehl “o planejamento das cidades prioriza as formas dos edifícios, o skyline, a cidade vista do avião… por vezes esquecendo das pessoas e da vida urbana”.

As cidades atuais sofrem os reflexos do modelo fordista, grandes infraestruturas urbanas voltadas para o automóvel e pouca urbanidade local (escala urbana do pedestre). Resultado desse cenário é a crescente transformação dos espaços pelos chamados “urbanoides”: cidadãos que buscam a melhoria do território urbano para encontrar pessoas, interagir, compartilhar e vivenciar a cidade. (LEITE, 2013)

A grande dicotomia é como realizar essas transformações, em conjunto com grandes projetos que buscam modificar e melhorar a cidade. Surgem assim, as micro intervenções, segundo Carlos Leite: “Cidades para pessoas. Reinventada por pessoas. Em densas cidades não formais. Criando algo novo entre realidades formais e informais. Territórios híbridos.”

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Projeto Centro Aberto da PMSP – Largo do Paissandu – fonte: reurb.blogspot.com.br

Para Jaime Lerner “Identidade, autoestima, sentimento de pertencimento, tudo isso está intimamente ligado aos pontos de referência que as pessoas têm de sua própria cidade. É um fator crucial de qualidade de vida, já que representa a síntese da relação entre o indivíduo e seu ambiente urbano”.

As intervenções pontuais, itinerantes são resultado da sociedade civil participativa , que se apropria do espaço, que tem  voz e colabora com as mudanças. Muitas vezes através de parcerias público/privada/ universidade, os projetos passam a se materializar pela cidade. São as hortas comunitárias, o cinema ao ar livre, a praia artificial, a biblioteca itinerante… É a diversificação do uso da via que vira parque, da rua que vira feira, da avenida que vira palco. A cidade se transforma para se conectar com a sociedade.

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Praça Rathaus – Festival de Cinema e Pista de patinação em  Viena – fonte: vivaviena.com

Nas cidades européias, a pluralidade de um mesmo espaço pode ser vista acompanhando o clima e suas necessidades. Em Viena – Áustria, a praça principal da cidade – Rathaus –  se  faz mutante, se transforma para receber o cinema ao ar livre do mês de verão até a pista de patinação do inverno frio. É ainda palco de festivais, feiras gastronômicas e manifestações. A sociedade faz uso do espaço o ano inteiro.

Outro exemplo é das margens do Rio Sena em Paris, muitas vezes usadas para piqueniques, lanches e conversas , o espaço se transforma no verão na praia dos franceses. Os tanques de areia que são instalados e as cadeiras de praia criam o ambiente descontraído para se aproveitar os longos dias de sol. Assim, o espaço antes nem sempre utilizado, se transforma e se torna um dos locais mais agradáveis da cidade.

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Praia artificial nas margens do Rio Sena em Paris – fonte: www.folha.uol.com.br

Em São Paulo o processo de apropriação se faz em larga escala. O número de coletivos e grupos interessados em proporcionar uma cidade mais receptiva aos seus moradores é enorme. Seja se apropriando de espaços antes abandonados como o Largo da Batata ou proporcionando uma instalação cultural/artística  numa antiga construção a ser demolida – Hospital  Matarazzo – a cidade fervilha de opções para o paulistano sair de casa e vivenciar novas experiências.

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Instalação Hospital Matarazzo – google images

Podemos citar como um dos maiores exemplos de apropriação espontânea do espaço pela população o Elevado Costa e Silva – Minhocão. Localizado no centro da cidade e a muitos anos analisado como uma fratura urbana, o espaço que permanece fechado para automóveis aos domingos, foi aos poucos sendo ocupado. Seja pelos moradores do entorno que encontraram ali um espaço seguro para praticar esporte, o “parque” mesmo sem nenhuma infraestrutura recebe as mais diversas ocupações no final de semana. Peças de teatro, festivais gastronômicos, intervenções artísticas e piqueniques são constantes no local. ( MULLER, 2014)

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Domingo no “ parque “ Minhocão – maio 2015  fonte: arquivo pessoal do autor

Foi em  agosto de 2009 que a prefeitura de São Paulo em parceria com a iniciativa privada, iniciou o projeto Conviva – Ciclofaixa de lazer. A proposta era de disponibilizar uma faixa viária de grandes avenidas na cidade aos domingos, para que usuários pudessem andar de bicicleta com maior segurança. O traçado ligava áreas verdes da cidade como o parque do Ibirapuera, o Parque Vila lobos e o Parque do Povo. Com o grande numero de usuários o projeto criou caminhos para as faixas permanentes destinadas as bicicletas na cidade. Atualmente a Avenida Paulista também passa a ser aberta aos pedestres e usuários aos domingos, tendo o fluxo de automóveis interrompido. A iniciativa busca integrar os diversos usos da avenida multicultural, tornando-a um grande espaço público  na cidade. (movimento conviva).

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Ciclofaixa de lazer São Paulo – fonte: sonhoseguro.com.br

A releitura dos espaços urbanos através de uma visão mais dinâmica e de intervenções que alteram as percepções temporais – itinerantes – redefinem a noção de lugar entre as fronteiras do público e privado, caminhando também para um cenário conhecido como “ shared cities” – cidades compartilhadas e apropriações instantâneas.

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Projeto Centro Aberto da PMSP – Largo do Paissandu – fonte:http://gestaourbana.prefeitura.sp.gov.br/centro-aberto-paissandu

 

Bibliografia:

– Vários autores. Cidades criativas: Perspectivas /

Ana Carla Fonseca Reis, Peter Kageyama, (orgs.). – São paulo: Garimpo de soluções, 2011

– LEITE, Carlos. Territórios Híbridos  + Reinvenção urbana: Amerika. V!RUS, São Carlos, n. 9 [online], 2013. Disponível em: www.nomads.usp.br/virus/virus09/?sec=8&item=1&lang=pt.  Acesso em: 15 Set. 2015.

http://www.tistu.net/p/cidades-sustentaveis-e-inovadoras.html . Acesso em: 14 Set. 2015

http://www.criaticidades.com.br . Acesso em : 15 Set. 2015

– ANTUNES, Bianca. Entrevista Jan Gehl fqala sobre cidades e escala humana, dezembro 2011. Disponível em: http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/215/jan-gehl-fala-sobre-cidades-e-escala-humana-250160-1.aspx. Acesso em : 15 Set. 2015.

– MULLER, Fernanda. Minhocão – um caso de apropriação espontânea de espaço público. Agosto 2014  Disponível em: http://casavogue.globo.com/Colunas /noticia/2014/08/minhocao-um-caso-de-apropriacao-espontanea-de-espaco-publico.html .                Acesso em : 16 Set. 2015

www.movimentoconviva.com.br . Acesso em: 16 Set. 2015.