Cidades Olímpicas e os impactos de um megaevento

Texto de: MARCELLA CARONE, 08/08/16

 

As palavras desenvolvimento e Olimpíadas muitas vezes aparecem combinadas na mesma frase, no entanto, para entender o real impacto urbano, social e econômico de um grande evento é necessária uma análise não só do legado que será construído, mas também do processo de transformação de uma cidade olímpica. É inegável que o evento seja um catalizador de investimentos e promova mudanças, mas até que extensão um megaprojeto é necessário?

Atenas, sede olímpica em 2004, é um grande exemplo do paradoxo do megaprojeto uma vez que muitas das estruturas construídas estão atualmente vazias e não apresentam utilidade para a cidade. Por outro lado, com foco em um real legado urbano, Londres apresentou diversas abordagens quanto às arenas, projetadas com estruturas permanentes, temporárias ou mistas, de acordo com a possibilidade de utilização no futuro. Pensar em estruturas temporárias não é uma novidade, mas Londres apresentou inovação na construção de projetos temporários de grande escala, como é o caso da arena de basquete para 12,000 pessoas, desenhada por Sinclair Knight Merz, Wilkinson Eyre e KSS. No caso do Rio de janeiro, a mistura de projetos provisórios e definitivos também acontece, em menor escala, além da reforma de estruturas utilizadas no Pan 2007.

Após quatro anos, o legado olímpico é claro para a capital inglesa. O desenvolvimento é visto não só nos arredores de Stratford, mas em todo o eixo nordeste, que abrange diversos bairros e comunidades. Para o transporte, novas linhas de overground com ligação direta com o centro foram criadas, transformando diversas áreas do leste londrino. Neste caso, os impactos relacionados à conectividade e ativação de novos espaços são evidentes, mas o acelerado desenvolvimento também estimulou a gentrificação. (Veja publicação: Contradições Londrinas: Inovação X Gentrificação)

Rápidas modificações, em possíveis polos de desenvolvimento, apresentam impactos sociais que não podem ser esquecidos em meio a alegria esportiva – massivas desapropriações são “necessárias”. De acordo com o COHRE (Centre on Housing Rights and evictions) e GIAN (Geneva international academic network), nos últimos 20 anos aproximadamente 2 milhões de pessoas saíram de suas casas em “prol do desenvolvimento” promovido pelas olímpiadas. O passado olímpico apresenta números assustadores quanto a deslocamentos realizados antes e depois dos jogos – Beijing (2008) lidera com 1.5 milhões de pessoas deslocadas, seguido por 720.00 em Seoul (1988) e 30.000 em Atlanta (1996).

No Rio de Janeiro olímpico o cenário não é diferente e áreas como a Vila Autódromo são o foco de desapropriações. Entre 2009 e 2013, mais de 20.000 famílias cariocas tiveram que dar espaço ao progresso, muitas com o argumento de “moradia em área de risco”. Além disso, na maioria dos casos esse fenômeno acontece em áreas mais pobres da cidade e com potencial de transformação futura – uma verdadeira limpeza social. No último dia 5 de agosto, por um lado, o mundo maravilhava-se com a abertura dos jogos olímpicos, por outro, famílias lutavam para não serem deslocadas de suas casas. A grande questão é como realizar intervenções urbanas, reduzindo ou excluindo o fenômeno da gentrificação. Desenvolvimento para quem?

Imagem1London Olympic Park em agosto de 2016. Novos empreendimentos na região de Stratford. Foto: Marcella Carone

Imagem2London Olympic Park em agosto de 2016. Aquatics Centre, Zaha Hadid Arhitects. Foto: Marcella Carone

Imagem3London Olympic Park em agosto de 2016.  Foto: Marcella Carone

Imagem4London Basketball Arena for the 2012 Olympics.  Sinclair Knight Merz, Wilkinson Eyre e KSS.

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Jane Nascimento de Oliveira resiste a desocupação. Barra da Tijuca. Rio de Janeiro , 2015 Foto: Lianne Milton for the Guardian

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Desapropriações e remoções no Rio de Janeiro, Fonte: SMH 2016: Remoções no Rio Olímpico

 

REFERÊNCIAS

Gold, John Robert. Olympic cities : city agendas, planning and the World’s Games, 1896-2012. 2007

http://www.ruig-gian.org/ressources/Report%20Fair%20Play%20FINAL%20FINAL%20070531.pdf

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/06/20/politica/1434753946_363539.html