ANTAGONISMOS URBANOS – CATALISADORES DE APROPRIAÇÃO

Texto de: CARLOS FAVERO MARCHI, 02/09/15

 

São Paulo é uma grande metrópole, complexa e de difícil leitura, mas que pode ser parcialmente entendida através da análise de alguns dos seus casos icônicos – a Avenida Paulista talvez seja um dos melhores exemplos. A grande avenida, multifacetada, apresenta uma diversidade de usos e ocupações, onde a apropriação do espaço acontece diariamente em diversas escalas com diferentes dinâmicas. (SHIBAKI, 2007)

Foi no final do séc. XIX que a elite cafeeira iniciou um processo de expansão do território urbano quando optou por se instalar no alto do morro do Caagaçu, um dos pontos mais elevados da região e que se tornaria futuramente a referência local das grandes famílias da sociedade paulistana. Joaquim Eugênio de Lima foi responsável pela compra de chácaras não loteadas e pelo desenvolvimento de um projeto para uma avenida (que se inspirou nos desenhos urbanos franceses), estruturada com 30 metros de largura, grandes lotes lindeiros e vasta vegetação (conhecida futuramente como Avenida Paulista). O francês Paul Villon foi o responsável pela arborização e pela criação de um parque da avenida, que não deixaria nada a dever aos grandes parques europeus. (MORAES, 1995)

imagem1Inauguração da Av. Paulista em 1891. Quadro de Jules Martim – fonte: google images

 

O parque Villon foi projetado em estilo inglês mas não possuía extensos gramados verdes, nem lagos ou campos para jogos, na área de 48.000m2, Villon optou pela preservação da mata Atlântica nativa, das espécies exóticas e da vegetação densa que podia ser explorada através dos caminhos sinuosos propostos. (BARTALINI, 1999).

Durante a administração do Barão de Duprat ( 1911-1914) foi construído em frente a este parque um edifício projetado por Ramos de Azevedo, o Belvedere Trianon; local que juntamente com o parque se tornou a sede dos intelectuais e da elite paulistana. O parque cujo o nome homenageava seu criador Villon, passou então a ser conhecido como Parque Trianon. ( URSINI apud FERRAZ, 2013)

A avenida, apesar de ter sido criada para a elite social da época, gerou significativos espaços públicos – principalmente por sua estrutura com passeios largos – transformando a região num local de convivência, espaço para passear e observar a cidade. Desde sua criação, a avenida atraiu também a visita das famílias menos abastadas, que queriam ver a nova grande avenida e sua infraestrutura. ( FERRAZ, 2013)

imagem2Foto aérea da Avenida junto ao Parque Trianon, 1958 fonte: www.geoportal.com.br

 

Em meados dos anos 50, o uso residencial na avenida dá espaço a novas construções verticais e usos mais diversos. A avenida passa a ser o coração financeiro da cidade, mas, mais que isso, reforça sua função catalizadora de ocupação. A implantação de edifícios como o Conjunto Nacional e o MASP nos anos 50 e 60, caracteriza uma ocupação dos térreos dos edifícios integrados ao grande passeio público, aberto aos  diversos programas culturais, de lazer, democratizando o uso deste território urbano. (SHIBAKI, 2007)

O terreno antes ocupado pelo Belvedere Trianon, foi doado a prefeitura, recebendo em 1968 um projeto para um museu, posteriormente conhecido como Masp. A doação do terreno exigia  que se mantivesse a vista para o centro da cidade e assim, Lina Bo Bardi lança mão do uso de uma grande caixa de concreto suspensa, com um vão livre de 74 metros, possibilitando a integração estabelecida. Desta forma, o vazio urbano criado no térreo ganha mais força que o próprio museu edificado , fomentando diversos tipos de apropriação: de feiras de artesanato a manifestações de cunho político, por exemplo. Antagonicamente, o Parque Trianon, que antes se fazia uma extensão desta área , passa a ser abandonado pela população que tinha medo de usar o local pois ali se instalaram mendigos e prostitutas, mesmo após projeto de revitalização desenvolvido pelo arquiteto paisagista Burle Marx (situação ainda mais agravada com a instalação de gradis que encarceravam o parque do seu contexto). (SHIBAKI, 2007 E ROLNIK, 2013)

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Croqui vão do MASP – Lina Bo Bardi. Fonte: www.vitruvius.com.br

 

Traçando um paralelo entre os dois espaços analisados, temos a Praça Alexandre Gusmão, que faz parte do mesmo contexto urbano. O local reúne as qualidades ambientais paisagísticas  do parque e o valor urbanístico cultural do vão do MASP.

A praça surgiu das obras viárias para abertura do túnel 9 de julho sob a avenida Paulista, entre 1929 e 1938. As abóbodas de concreto executadas foram aterradas e sobre as mesmas foi construído um elemento neoclássico responsável pela ventilação dos túneis, formava-se  a Praça Alexandre Gusmão.

imagem4Praça Alexandre Gusmão em 1940 – autor desconhecido fonte: google images

 

O espaço de 12.000m² vizinho ao parque Trianon, se encontra integrado à cidade, a praça  aberta e fluida, é palco de eventos musicais como o evento “ o dia da música” , encontros no horário de almoço, local para relaxar entre os imensos edifícios verticais da região. O conforto ambiental se faz pela presença de imensas árvores no seu entorno e seus caminhos possibilitam um percorrer e ficar, criando áreas sombreadas, convidativas e não obscuras.( site PMSP acessado 26/08/2015)

imagem5Dicotomia: o parque cercado e a praça aberta

 

O desnível existente no terreno além de proporcionar um amplo visual da praça, que convida o usuário a se apropriar do espaço, permitiu a implantação de uma garagem subterrânea com uma solução arquitetônica extremamente peculiar. O projeto de 1996 realizado pelo escritório MMBB, tinha como premissa a preservação das configurações da praça e a utilização do espaço entre a mesma e os túneis da 9 de julho. Com as restrições apresentadas e pensando na otimização do edifício, a solução foi aproveitar o desnível e trabalhar com pisos rampados, não necessitando assim de rampas e conseguindo assim um melhor  aproveitamento para a disposição das vagas, criando também  uma continuidade espacial perceptiva aos usuários. (site spbr.arq.br acessado 27.08.2013)

imagem6Praça Alexandre Gusmão sobre garagem e túneis – fonte: spbr.arq.br

 

O convívio de antagonismos urbanos quando encontram um ponto de equilíbrio, catalisa diversos processos de apropriação, como acontece no complexo urbano apresentado. A busca constante pela apropriação dos espaços pela sociedade nos traz diversas maneiras para que a mesma aconteça. A Paulista multicultural e diversificada, apresenta em seu fechamento aos domingos uma nova possibilidade de espaço urbano. Vale saber se essa solução conseguirá potencializar os usos do seu entorno urbano.

imagem7Complexo urbano av. Paulista: MASP, Trianon e Praça Alexandre Gusmão – fonte: sampaonline.com.br

 

REFERÊNCIAS

  • BARTALINI, Vladimir – Parques públicos municipais de São Paulo. A ação da municipalidade no provimento de áreas verdes de recreação. Tese de doutorado, FAUUSP, São Paulo ,1999.
  • FERRAZ, Valeria de Souza – Hospitalidade urbana em grandes centros. São Paulo em foco. Tese de doutorado, FAUUSP, São Paulo,2013.
  • MORAES, Flavio Luiz Marcondes Bueno de – Estudo crítico e histórico da Avenida Paulista. Tese de mestrado, IFCH UNICAMP, Campinas, 1995.
  • SHIBAKI, Viviane Veiga – Avenida Paulista: da formação `a consolidação de um ícone da metrópole de São Paulo. Tese de mestrado, FFLCH USP, São Paulo, 2007.
  • ROLNIK, Raquel – Vão livre do MASP reflete o caráter de São Paulo. Artigo publicado no site viomundo.com.br, São Paulo, 2013. Acessado em 25.08.2103.